Sem descuidar do rigor químico, esta obra procura abordar os principais temas ambientais, dentro de um contexto multidisciplinar: aspectos históricos, geográficos e biológicos são enfocados de forma precisa, constituindo um excelente painel para os que querem conhecer os problemas ambientais de uma forma ampla e justa.
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Medeiros

Tema 3 - Lições sobre a África
(publicado na edição do dia 12/06/2009)

Exame vai cobrar dos vestibulandos conhecimento da história do povo africano, assunto que ainda não é aprofundado nos livros
Mirella Marques
mirellamarques.pe@diariosassociados.com.br

Metalurgia, arquitetura, tecelagem, medicina popular e musicalidade. Você sabia que o berço de todas essas descobertas importantíssimas para o desenvolvimento humano é a África? Se a resposta for negativa, não precisa se preocupar. É que boa parte do conteúdo de história ensinado nas escolas fala apenas sobre a escravidão. O período em que os negros se transformaram em mão de obra do sistema escravocrata do Brasil colonial. Neste ano, o Ministério da Educação (MEC) anunciou que vai cobrar questões sobre a história dos povos africanos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), prova que vai substituir de forma total ou parcial o vestibular das três universidades federais no estado. Serão valorizadas a cultura e a tradição dos negros e a contribuição desse povo para a formação da identidade nacional. O acréscimo do assunto, no entanto, não chega a dar trabalho ao fera. Mas vai exigir uma visão crítica. O aluno deve estar ciente de que antes de ser dominado, o africano vivia numa sociedade com costumes próprios.

Na terceira reportagem da série sobre os novos conteúdos do Enem, o Diario caiu em campo para saber como a questão pode ser abordada no teste nacional. Como o assunto ainda não está nos livros do ensino médio, foi preciso conversar com especialistas acadêmicos, professores e ativistas dos movimentos negros em Pernambuco. De acordo com o primeiro professor de História da África da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), José Bento da Silva, a história africana só passou a ser reconhecida após a ditadura militar. "Antes havia uma visão de que o Brasil era formado por três raças e que a história deveria ser contada a partir dessa miscigenação, sem levar em conta a bagagem cultural dos africanos antes de chegarem aqui", informou.

Os escravos influenciaram diretamente a formação do novo país chamado Brasil, ao lado de portugueses e índios. "Os negros estavam inseridos nas casas, no trabalho, no comércio e até nas igrejas, mesmo que estando em posições submissas ao branco", explicou José Bento. E como houve influência! O que dizer da famosa feijoada, prato criado pelos negros? Ou do samba, que tem origens nas rodas dos escravos, ritmo que representa o Brasil no mundo inteiro? Antes de chegar ao Brasil, a maioria dos africanos vivia em reinos e tinha uma tradição oral. Eles dominavam conhecimentos de metalurgia, arquitetura, tecelagem e medicina popular. Culturalmente, desenvolveram o conceito de musicalidade e de expressão corporal, algo novo para os colonizadores europeus. Por meio da dança e da música os africanos trabalhavam e desenvolviam sua religiosidade.

O choque cultural entre portugueses e escravos não foi fácil. Os primeiros faziam valer sua força com armas de fogo e torturas. Os negros resistiam em comunidades chamadas quilombos. O impasse durou quatro séculos. "Hoje existe uma conscientização do que se fez com o negro no Brasil. No passado ele sequer era considerado gente. Na educação, isso foi fortíssimo e perdurou até após a abolição. O descendente de africano foi solto na sociedade sem nenhuma estrutura. Tiraram o negro da senzala e o jogaram nas favelas. Os alunos precisam ter essa consciência", ensinou a professora de história do Colégio Boa Viagem, Luzinete Kurtinaitis.

                                                 História africana

l Até o século X, antes da escravidão, a África era dividida em reinos, tinha cultura e organização próprias. Esses reinos eram contemporâneos aos feudos europeus

l A África é o berço da metalurgia

l As noções de navegação no mundo antigo foram desenvolvidas, sobretudo, na Etiópia

l Os africanos foram os primeiros a confeccionar tecidos de algodão

l O Egito é considerado um dos berços da arquitetura

l O conceito de musicalidade (sons e danças presentes em rituais religiosos, de trabalho e de lazer) foi criado na África

l O continente africano aceita a poligamia - casamento com várias parceiras (os). O vasto número de filhos era diretamente ligado ao status do homem

l A escravidão foi iniciada no século XIV. Os africanos foram trabalhar em praticamente todos os continentes antes das abolições, até o século XIX

l Na África moderna, Nelson Mandela lutou pelo fim do apartheid (separação de negros e brancos) na África do Sul

l Assim como em outros países pobres, os países africanos também sofrem com a miséria. O continente luta contra problemas como a má distribuição de renda e a Aids

                          Como o assunto será abordado no Enem?

l O tema pode cair nas questões de história e geografia, ressaltando a importância dos africanos para a construção da identidade do Brasil

l Os principais ritmos do país (samba, lambada e maracatus) têm influência africana

l O comportamento emotivo do brasileiro é consequência, em parte, do sentimentalismo africano

l Do linguajar africano foram herdadas palavras como "cachimbo", "quitanda", "bengala" e "bumbum"

l A persistência nacional é uma característica da África (resistência dos quilombos)

Fonte: departamento de História da UFPE e equipe pedagógica do Colégio Boa Viagem.

Entrevista // Ubiracy Ferreira


"O negro faz parte de toda a sociedade"

Bem que a história do criador do Balé de Cultura Negra do Recife (Bacnaré), Ubiracy Ferreira, poderia se tornar símbolo da miscigenação brasileira. Ele é descendente de franceses, holandeses, portugueses e índios. Mas é a origem africana que fala mais alto em sua alma. Ferreira fundou o Bacnaré há 24 anos. É o único corpo de baile do país a reproduzir danças verdadeiramente senegalesas, sul-africanas, angolanas, togolesas e moçambicanas. Pela iniciativa o grupo, formado por 38 integrantes, já ganhou mais de 100 prêmios internacionais. Em entrevista ao Diario, Ubiracy afirmou que a identidade com a cultura negra está se tornando motivo de orgulho para os jovens brasileiros. Tendência que deve crescer com a adoção do assunto história dos povos africanos no Enem deste ano.


Como o senhor enxerga a cobrança da história dos africanos no Enem?

Hoje percebo que há vaidade nas pessoas ao falarem sobre as tradições africanas. Sobretudo dos jovens. Eles já estão assumindo seus traços negros, a característica dos cabelos. Já participam de maracatus. Antes, havia muito preconceito. A cultura negra parecia ser algo inferior por causa do racismo. É uma pena que só agora, por conta do Enem, as escolas tenham que se voltar para a contribuição dos africanos na formação do Brasil.


Quais foram as contribuições dos negros na formação do Brasil?

O negro fez parte de toda a sociedade, sem exceção. Estava no campo, na igreja, na cozinha, na criação dos filhos dos patrões. A quantidade de palavras africanas presentes no vocabulário brasileiro é grande.


Como o senhor explica a manutenção dos costumes africanos?

Isso foi possível graças à resistência do negro. Quanto mais havia opressão, mais ele tentava repassar sua cultura aos descendentes.

Quem é o negro brasileiro?

Ele não é mais puramente africano. Corre em suas veias o sangue português e indígena também. Estamos num caminho de valorização.

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